O que se perde pro mar

Mar não tem cabelo, já dizia minha mãe. Quem muito adentra não tem onde segurar. Passar da linha do umbigo é perder o controle da situação, coisa para aqueles que confiam no próprio braço na hora do aperreio. Os temerosos à imensidão azul, como eu, contentam-se com a água aos ombros, não do fundo, mas da beira. Sentam-se onde as crianças brincam e curtem a adrenalina das ondas que quebram já sem força.

À expressão popular, que anualmente ouço ao ir à praia, adiciono: mar tem vaidade. Relógios, óculos e pulseiras, de marca ou não, ele leva. Seja Rolex ou da 25 de Março, não importa, ambos são oferendas que o grande velho azul aceita sem titubear. Óculos, inclusive, são os preferidos.

Quem oferece, porém, não sabe que o faz. Essas pessoas decidem entrar ao mar com os acessórios vestidos, no alto de uma confiança que beira a soberba. Muitas ficam a molhar os pés, são as que mais perdem os chinelos. Já as que insistem em ir mais ao fundo são as mesmas que doam os objetos de maior valor.

O ritual necessita cautela. Enquanto o banhista está atento, o mar mantem-se calmo, como quem sente vergonha de pegar algo aos olhos daquele que o presenteia. Mas, basta o rápido descuido para o oceano manifestar-se em forma de onda, daquelas que bate forte na cara, que desestabiliza os mais estáveis e que desespera quem costuma parcelar as coisas em 12 vezes sem juros.

O desespero, falando nele, é um comportamento curioso. Há quem grite, peça socorro ou abra os olhos dentro da água salgada (não recomendável) com a esperança de achar o que foi perdido. Em pouquíssimos casos há a devolução, com um inaudível “deuzulivre, pega pra tu de novo” marinho.

Por fim, uma outra personagem completa o elenco dessa história. É aquele que, antes de tudo, avisa sobre o perigo do que está a prestes a ocorrer. Que diz “tire isso, vai cair” ao ver o outro no mar. Apesar de escassos estudos acadêmicos, arrisco-me a dizer que em 99% dos casos elas existem nessa ocasião e, pra completar, estão certas. Na lata. Vai perder! Perdeu!

São essas pessoas que sabem: o mar é vaidoso.

“Moço, por favor, me ajude”

Quando a gente vê a sinceridade nos olhos, mas mesmo assim desconfia

Embaixo de uma sombra de árvore, sentada no meio fio pintado de cal, uma menina olhava para os lados, como quem procurava algo. A criança, aos pés da mãe, imitava o olhar da progenitora, uma senhora negra, de bolsa em obro, que esperava pacientemente por alguém. Eram mais de dez da manhã. Ali, no estacionamento da universidade, o sol de quase verão arrancava gotas de suor da testa da mulher, mas parecia não afetar a garota.

Ao me aproximar das duas, não por conhecê-las, mas por estarem no caminho do meu destino, uma delas me cumprimentou se desculpando, não quero atrapalhar. Em seguida, veio a súplica de ajuda e a razão daquele pedido:

– Sou do interior, meu marido saiu de casa. Vim ontem pra cá atrás de umas faxinas que minha cunhada me prometeu, para ao menos dar um natal às minhas crianças. Só que ao chegar no endereço, descobri que ela tinha se mudado, vive em outra cidade. Agora, não tenho mais um tostão pra ir atrás dela nem pra voltar à minha terra.

Dinheiro, porém, ela não me pediu. Queria saber onde conseguia um lugar, alguma ajuda da prefeitura, para apaziguar o medo de dormir fora de casa. Na rodoviária, onde tinha passado a última noite, ninguém a ajudara.

Aquela retirante, de dor nos olhos, aparecia na minha vida dias depois de eu ter finalizado o livro “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, cujas páginas contam a história de Chico Bento, um sertanejo que, ao sofrer com a seca, decide abandonar sua terra e ir em direção à capital em busca de uma vida melhor.

Durante a leitura, sofri com cada negação que o homem recebia em seu trajeto a pé. Um pouco de farinha, um copo de água e um trabalho que fosse. Toda resposta era não.

Em frente à mulher, cuja mão repousava no meu braço, perguntei-me as negações sofridas durante o percurso dela. Quantos ouvidos feitos de surdo, olhares de cego e bocas de mudo passaram por aquela interiorana?

Não pude deixar de ajudar. Era a ficção tornando-se realidade bem na minha frente e pedia-me ajuda. Moço, por favor. Me propus, então, pagar a passagem de volta. 39 reais, 18 cada.

No momento da doação, relutância. É muito dinheiro, tem certeza que não vai te fazer falta? Tem mesmo?

Por fim, ela pegou a quantia e rapidamente me deu um abraço, forte. Olhou nos meus olhos, nunca vou esquecer esse bem que o senhor me fez!

Ao dar às costas às duas, procurava entender o que acabara de acontecer. Meu destino já não importava mais. Em minha carteira havia, agora, menos dinheiro, tinha dado tudo dela à uma desconhecida, que em cinco minutos me emocionara com seu relato de retirante.

Relato fictício? Destrinchei o discurso da mulher em busca de alguma brecha de mentira. O gaguejar ao falar do ônibus de volta, a descrição incerta de como havia chegado à universidade e um riso de canto da criança. Todos os detalhes da conversa vieram aos meus olhos e ouvidos, detetives de farsas.

A vergonha, que em seguida se alastrava no meu peito, vinha da ingenuidade. Teria eu caído em um golpe? Como pude ter sido tão impulsivo com todas essas conversas que a gente escuta sobre charlatões?

Sendo fictício, como a história criada por Rachel de Queiroz, ou não, o discurso daquela mulher, enfim, pouco importava. A história contada, fosse do interior ou da capital, não tinha real peso frente ao olhar sincero que vi nos olhos dela. Ela precisava daquele dinheiro. E, mesmo se os olhos escondessem no fundo da córnea a malícia, preferi não me importar.

Não precisa ser perfeito

O que aprendi numa exposição de arte contemporânea

Linhas, pontilhados, traços. Nada fazia sentido. Em uma das salas da exposição “Fora da Ordem”, na Pinacoteca de São Paulo, eu me perguntava a razão das pessoas olharem com tanta preocupação aqueles quadros pregados na parede. Elas pareciam entender cada detalhe das obras, como se tivesse ali um código secreto cuja mensagem eu não conseguia captar.

Exposição ‘Fora da ordem – Obras da Coleção Helga de Alv
Exposição “Fora da Ordem” na Pinacoteca de SP. Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP

Passava, voltava, dava uma olhada novamente. Me impressionava com a origem do artista. Nossa, essa aqui veio da Espanha. Mas, para mim, nada daquilo parecia ser além de figuras abstratas sem sentido.

Nas imagens, por exemplo, procurava padrões ou elementos reconhecíveis, como um pé, uma mão ou algo que parecesse um coelho numa floresta. Até que eu me dei conta que para entender aquelas obras eu estava usando referências de design gráfico, que pra mim era tão acessível nas redes sociais.

As pinturas que eu olhava não representavam uma pessoa, uma fruta ou uma paisagem, como os desenhos de ilustradores que sigo no Instagram e que considero referências para as minhas produções. Também passavam longe daquelas da era renascentista, nada de trabalho com sombras ou pinceladas. Aquilo tudo, naquelas salas, não precisava ser perfeito. Como qualquer tipo de arte.

Algumas semanas depois, já em Natal, enquanto dava uma olhava na newsletter diária do Medium, cheguei ao artigo “Here’s why you might be afraid to live a more creative” de Thomas Oppong, em que ele fala sobre o medo de produzir das pessoas que se dizem não criativas. No texto, ele comenta que não precisamos ser perfeitos para começar algo. Isso se encaixou perfeitamente com o que eu tinha passado na Pinacoteca paulistana.

A exposição contava com diversos artistas aclamados pela crítica mundial e as obras nem sequer eram perfeitas. Quando a ficha caiu, passei a respeitar a existência das obras e a reconhecer o trabalho daqueles artistas de diversos países. Quando vi, já tinha me incorporado ao grupo de pessoas que prestavam atenção. Não para entender, mas para contemplar.

Eu tenho preconceito literário

E estou trabalhando isso em mim

Eu sou um defensor da literatura brasileira. Acho que temos autores fantásticos com histórias incríveis ambientadas nas nossas terras e que precisam ser valorizadas. Costumo adorar clássicos, mas reconheço que existem também vários escritores contemporâneos que dão o nome no mercado editorial do país. Enfim, amo/sou literatura nacional.

Me incomoda, por exemplo, pessoas que têm olhos apenas para gente de fora. Mais que isso, para exclusivos livros que estão constantemente na lista dos mais vendidos, os Best Sellers. É possível ver dezenas desses leitores, por exemplo, em uma simples pesquisa nos blogs e canais literários.

Por essas andanças na internet eu tentei evitar, mas realmente não consigo: tenho preconceito com esses leitores.

Para mim, a literatura pode ser muito mais do que um romance fofo em uma cidade grande como Nova York. Os livros podem trazer vivências extremas, difíceis de acontecer na vida cotidiana. São experiências que, de certa forma, nos formam como indivíduos e como cidadãos. Beijo Saramago!

Tenho a impressão de que ficar nesses Best Sellers é se limitar, manter-se no hegemônico. Achar que uma história “mamão com açúcar” é o máximo que se pode ter de um livro, definitivamente, é se acomodar.

Nos últimos dias, porém, venho repensando esse posicionamento ao me dar conta da distância que a literatura tomou em relação ao povo. Historicamente, a leitura é considerada uma atividade intelectual, inacessível à massa trabalhadora – merecedora somente do entretenimento e da “alienação” do rádio e da televisão. A leitura, portanto, sempre esteve longe do povo e qualquer aproximação é vista com maus olhos pelos críticos (vide fenômeno dos autores youtubers).

Na realidade, eu não sei detalhadamente a vivência desses leitores: se tem tempo de sobra, se foram instruídos a ler desde pequenos, quantos por cento procuram outros gêneros e quantos continuam nos mesmos tipos de livro. São diversos fatores que acabam influenciando no próprio costume de ler.

Mais importante que julgar o gosto alheio, portanto, é respeitar os diversos tipos de leitores que existem e suas realidades. Eu tive a curiosidade de procurar outros autores e preciso aceitar que algumas pessoas não fizeram o mesmo e que não vêem problema algum enquanto a isso. E ainda, o mercado editorial é capitalista e precisa das vendas dos Best Sellers para continuar publicando materiais de outros tipos, sejam eles clássicos, livros alternativos e autores iniciais.

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Surra de vibes

Uma análise do clipe “Cranes in the Sky” da Solange

Não sei se vocês sabem, mas a Beyoncé tem uma irmã tão foda quanto ela. Solange Knowles também é cantora, mas, diferente da megalomaníaca Queen B, é bem mais reservada e prefere criar coisas minimalistas. A caçula da família Knowles lançou semana passada o disco “Seat at the table” cheio de músicas sobre autoafirmação e empoderamento negro.

Junto com o álbum, a cantora disponibilizou dois videoclipes, dirigidos por ela e por Alan Ferguson. Um deles, “Cranes in the sky”, chamou minha atenção antes mesmo de assisti-lo. Ainda ouvindo a música, no Spotify, a letra me encantou por falar em rejeição de sentimentos ruins de uma maneira delicada.

I tried to keep myself busy
I ran around in circles
Think I made myself dizzy
I slept it away, I sexed it away
I read it away

Até aí tudo bem, mas confesso que não entendia direito a razão do título e do próprio refrão da letra:

Well it’s like cranes in the sky
Sometimes I don’t wanna feel those metal clouds

Guindastes no céu? Nuvens de metal? Nada disso fazia sentido numa letra que falava sobre a fuga de pensamentos e sensações estranhas. Tudo mudou a partir do momento que assisti o videoclipe, disponibilizado no youtube:

O que primeiro me encantou no vídeo foi o fato de Solange contracenar com outras mulheres negras e não estar no meio, no centro das atenções. Pelo contrário, às vezes é difícil achá-la entre um take e outro. Inevitavelmente, você passa o olho em todas as pessoas do quadro.

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Além das cores frias e em tons pastéis da fotografia, que deixou tudo mais agradável de assistir e deu unidade estética à obra.

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Mas, o que realmente me tocou foram as sequência de imagens da cantora dançando em ambientes fechados e abertos. Uma hora sufocada em um quarto com espumas e metais expostos, outra contemplando o infinito, sendo um ponto minúsculo em frente a pedras enormes.

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Seria, então, um embate entre a natureza (sky) e o humano (cranes)? Pra mim, isso fica claro com uma cena de duas mulheres dançando no que seria uma estufa inutilizada. A estrutura lembra uma gaiola moderna, feito pelo próprio homem. Elas estariam presas. Em seguida, porém, outras duas dançarinas executam a mesma coreografia em cima de uma duna, é a liberdade do natural.

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Em “Cranes in the Sky”, portanto, Solange diz que tenta viver longe das complicações. Na música, os problemas são materializados em um vida artificialmente construída. É longe que a artista quer estar, em um local tão libertador como o infinito de uma pedra, do céu e da areia da praia. Aqui, a cantora não somente faz um videoclipe lindo, como também uma obra de arte contemporânea.

Desculpem, eu errei

Ideias boas na cabeça e ruins no papel

Explicar piada é sempre chato. Tira a alma do negócio e escancara a graça de algo que, no final de contas, não vai render nenhuma risada. Quando a anedota é contada e o maior esboço de sorriso na mesa é o seu, às vezes é melhor deixar pra lá e fingir que nada aconteceu, like a egípcia.

 Já se a piada inocente dá lugar a uma crítica em um momento de tensão política, eu tenho minhas dúvidas sobre o que fazer. A necessidade de explicar onde está a ironia numa situação dessas é bem mais complicado.

E foi nesse contexto que me vi nesta semana ao publicar o nono miniconto no instagram e no facebook do canguleiro (@ocanguleiro). A história falava de um jovem que desabafava sobre a falta de movimentação e mudança de Natal, fazendo alusão à beleza da natureza da cidade.

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Passando pela Hermes eu notei que ele olhava fixo para fora da janela do carro. Perguntei o que havia acontecido e ele me respondeu, meio que divagando:
– Às vezes eu penso que nós vivemos em uma cidade tão bonita e tão agradável, que nada precisa mudar. É como se a beleza estática das flores dos canteiros ou das árvores do parque já bastasse e nos dissessem “deixa assim, como está”, e a gente vai vivendo da mesma forma, todos os dias

Na minha cabeça o conto estava ok e casava bem com o momento de reeleição de Carlos Eduardo com mais de 60% dos votos. Nada mudava e, pra mim, o personagem do conto deixava claro a ironia ao dizer que os dias passavam iguais, sem nenhuma novidade, bem como as flores dos canteiros da avenida Hermes da Fonseca.

Munido de uma auto-segurança, escrevi o conto, desenhei as florezinhas e postei no perfil público sem nem ao menos perguntar a um amigo se aquilo ali estava claro. Para minha surpresa, uma dessas amigas, que frequentemente lê o que posto e sempre tem algo a dizer, veio me contar a sua interpretação, que, diga-se de passagem, era bem diferente daquela que eu estava imaginando. Após uma breve pesquisa com outros conhecidos, reconheci que o objetivo do texto não estava acessível.

Ao escrever aquele pedaço de história, meus sentimentos estavam claros para mim. Infelizmente, não consegui levá-los ao texto. Há um tempo vinha refletindo sobre a inércia na qual diversos natalenses estão mergulhados e o conto, ao fim, fazia total sentido… pra mim.

Nessa história toda acabei achando melhor não alterar o texto. Não queria explicar a piada, mas também não poderia deixa-la passar. Dessa forma, acho melhor pedir desculpas e prometer a mim mesmo um olhar mais atento à interpretação dos leitores. #PAS

As incertezas vivas de mim

Onde está o certo e o incerto, figurativamente, está a luz e o escuro. Nos últimos anos, a fim de entender o que sou e onde estou, busco, inevitavelmente, o conforto da luminosidade. Mas entre certezas e incertezas, prefiro as vivas ou as mortas? As certezas que são secas pedras ou as incertezas que pulsam?

Esses questionamentos nem passaram pela minha cabeça antes de conhecer, no último dia sete, a 32ª Bienal de Artes de São Paulo, realizada no Parque Ibirapuera. O tema desta edição, “Incertezas Vivas”, discute e enaltece os conhecimentos populares e marginalizados, como o de origem indígena, em meio a tantas “certezas mortas” do nosso cotidiano.

Confesso que há um tempo tento ser um teórico de mim mesmo, buscando razões, significados e sentidos naquilo que sinto, faço ou até mesmo sigo ideologicamente. Com a luz na mão, segui esses anos escrevendo mentalmente um grande livro de conclusões pessoais em meio a escuridão da vida.

O fato é que minha obra pessoal caiu do terceiro andar do prédio da bienal e se espatifou no chão do térreo. As minhas certezas, tão rígidas e secas, já não faziam mais sentido em meio a tantos questionamentos vívidos presentes em diversas criações expostas no local.

Foram cores, formas, frases de efeito e até algumas fotos que fiz no meu celular. Foi arte mostrando a mim outras realidades e modos de viver, como as construções “Dois Pesos e Duas Medidas” da artista mineira Lais Myrrha, e a oca de Bené Fonteles. Mais que isso, foi arte ensinando que sentir é tão prazeroso quanto responder perguntas.

Após a experiência, desapeguei das certezas mortas que também me matam por dentro e me impedem de enxergar outros posicionamentos. Passei, assim, a ver beleza no incerto, na dúvida que tanto me pesa, mas que é viva, que pulsa no meu interior. Com o livro destruído e a alma desconstruída, sigo tentando largar de mão a luz e experimentar viver e sentir a completa escuridão.

Foto: Hector Sos