Entre os corredores estreitos do camelódromo do centro da cidade, a banca Sétima Arte guarda relíquias do cinema. Além disso, o local é ponto de lazer diário de um senhorzinho chamado Inácio Magalhães, mais conhecido como Seu Inácio. Amante da sétima arte, assistiu mais de 20 mil obras e ficou famoso na cidade após ser personagem do documentário “Sêo Inácio (ou o cinema do imaginário)”. Mas, apesar do amor pelo cinema, foi nos livros que, ainda menino, conheceu o mundo e se encantou pela imaginação.

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Seu Inácio rodeado por livros em sua casa, imagem do documentário dirigido por Helio Ronyvon.

Natural de Ceará Mirim, cidade da região metropolitana de Natal, ele cresceu entre tradições e mitos sobre senhores de engenho e mulheres cruéis. Quando criança, escutava as estórias contadas pela tia e pelos vizinhos de rua. Foi a partir daí, que Inácio se encantou com os contos de ficção.

Conheceu os cordéis e começou a ler os livros de história enquanto estava na escola. “Eu só fiz até o quarto ano [do ensino fundamental], então os livros de história do Brasil e de geografia me abriram o mundo. O mundo dos oceanos e dos países”, relembrou Seu Inácio.

Depois foi a vez da literatura religiosa entrar na vida do menino interiorano. Descobriu a igreja católica e ficou encantado com as liturgias e os rituais. Amigo do padre da cidade, teve acesso às obras sobre santos e todo o universo religioso. “Naquela época eu achava tão bonito que queria ser santo”, relatou.

Mas, foi nos romances de José Lins do Rego e de Graciliano Ramos que Seu Inácio se encontrou. Lendo os dois autores, ele enxergou o universo sertanejo em que vivia nas páginas cheias de letras. “Eu tenho uma interesse muito grande nesse tipo de literatura que fixa bem o nordeste, que é o meu mundo” e ainda complementou “Um nordestino que não conhece José Lins do Rego não sabe o que tá perdendo”.

Já dominando os autores do sertão, Seu Inácio partiu em voos mais longe. Viajou , por exemplo, pelo Portugal de Eçá de Queiros, em “Os Maias”, e pela Rússia de Dostoiévski. “Só teve uma literatura que eu não ousei, que foi ler Proust [muito mais pelo tema do que pela forma de escrita]”, contou ele.

Apesar de não saber quantos livros foram lidos durante sua vida – como sabe dos filmes – a lista de autores e obras devoradas pelo ceará-mirinense é extensa. E acredita, ainda, que já tenha lido o melhor que a literatura possa oferecer. “A literatura me salvou por descobrir que no mundo há possibilidades”, respondeu.

Os autores potiguares

Ao ser questionado pelo espaço dos norte riograndeses na estante, Seu Inácio deu ênfase ao gosto pelas escrituras de Câmara Cascudo e pelo trabalho do folclorista. Além disso, também elogiou os poemas de Zila Mamede e Diva Cunha.

“Câmara Cascudo analisou a música, as danças e as religiões populares. Ele não foi o homem acadêmico, no velho sentido dos grandes cientistas que moldam tudo por um ideal acadêmico. Ele foi uma pessoa livre”, opinou o leitor.

Já Mamede ganhou notoriedade na vida do aposentado por ser, como ele diz, uma leitura de alto nível. “É feliz de quem lê Zila Mamede e entende”, disparou Inácio, ainda complementando que os jovens de hoje em dia não tem paciência para ler e entender certos autores.

A importância de ler o mundo

Livros, no entanto, não são a única fonte de conhecido. Para Seu Inácio, o analfabeto consegue ler sim. “Há no homem uma sabedoria natural que a própria vida ensina a ele. O homem sabe ler o mundo”, disse se referindo a capacidade de aprender com as experiências diárias e o senso comum, ideias aplicadas pelo sociólogo Paulo Freire.

“Seria maravilhoso se todo mundo lesse. Não só letra, mas ler o mundo. Lesse as pessoas. Pudesse ler nos olhos e se enchesse de ternura e compaixão pelas pessoas que sofrem, pelos desamparados”, comentou.

Mesmo assim, ele disse, o acesso às grandes obras é fundamental para formar cidadãos conscientes dos papéis sociais que exercem. “[A literatura] eleva o homem a uma condição de ser mais homem, e com isso ele reconhece os seus próprios direitos, o direito dos outros e organizar um estado mais correto, mais justo”, complementou.

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