Tão bom quanto ler é discutir as interpretações deixadas por um livro. Assim, após o término de uma obra, procuro, com certa frequência, resenhas pela internet com o objetivo de averiguar, nas opiniões alheias, se entendi realmente o que a personagem quis dizer em determinada passagem ou tirar aquela dúvida sobre a forma de escrever do autor.

No entanto, no lugar de achar textos com opinião, eu ando me deparando com resenhas meramente descritivas, que recontam o livro. A crítica se limita, muitas vezes, à experiência de ter achado a publicação numa prateleira ou ao ritmo da leitura (se fluiu ou não).

Semana passada terminei “O Leitor do Trem das 6h27”, o primeiro romance do francês Jean-Paul Didierlaurent e, como sempre, busquei analisar as discussões sobre o livro no Skoob (rede social sobre livros). Nos 24 depoimentos cadastrados na página da obra, em muitas delas apenas (re)li as informações que estão na orelha do livro.

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Em nenhuma das resenhas vi comentários, por exemplo, dizendo que a publicação do francês seguiu uma fórmula “homem de meia idade + trabalho mecânico + hobby estranho = busca por uma amada” já explorada pelo também europeu José Saramago nas 279 páginas de “Todos os Nomes”, há quase 20 anos.

E o que essa equação, apresentada acima, representa socialmente? As “opiniões” também não dizem. Os julgamentos se preocupam em comentar se o livro impressionou ou não, se o número de páginas é pouco ou se o autor foi delicado na retratação da vida das personagens.

Dessa forma, me questiono se esses leitores sabem a diferença de resumo e crítica, que, de acordo com o dicionário Michaelis, a primeira consiste em condensar “em poucas palavras do que foi escrito” e a segunda se refere ao ato de “julgar”, ou seja, expor as opiniões sobre algo. A resposta é óbvia. Mas o que mais me preocupa é que as pessoas acham que é assim que se faz uma boa resenha.

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Onde podemos melhorar?

A internet e a grande mídia reproduzem dezenas de textos com os mesmos problemas. Além da falta de opinião, as resenhas são pautadas pela agenda de publicações das editoras e ignoram as falhas técnicas na hora de analisar. Dessa forma, as críticas se limitam em falar das novas obras de novos autores e trazem apenas os elementos positivos da história e da escrita deles.

No livro “Jornalismo Cultural”, Daniel Piza discute e confirma as falhas que os meios de comunicação cometem quando apresentam assuntos culturais, principalmente, em formatos de crítica.

“Lemos muito sobre discos, filmes, livros e outros produtos no momento de sua chegada ao mercado […]. No entanto, raramente lemos sobre esses produtos depois que eles tiveram uma ‘carreira’, pequena que seja, e assim deixamos de refletir sobre o que significaram para o público de fato”

Quem costuma ler e gosta de se aprofundar tem que garimpar blogs e sites de literatura com uma base boa de crítica. Isso se não desistir, em algum momento, de pesquisar resenhas onlines e impressas.

Por fim, o sentimento que fica é que falta nas resenhas gerais a capacidade de relacionar outras obras e escritores (qual autor me lembrou esse estilo de escrita?), falta discutir as impressões deixadas pelo livro (as ideias do texto mudaram meu jeito de ver o mundo?) e, acima de tudo, falta sinceridade na hora de julgar os elementos da obra.

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Este artigo foi originalmente publicado no perfil do Medium.

 

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Um comentário em “Menos resumo e mais crítica

  1. Oi!
    Gostei bastante do que você escreveu. Também me deparo com “críticas” abordando diagramação, finura das páginas, coisas desse tipo, ou cópias de sinopse. Tenho buscado refletir sobre alguns livros e escrever no blog um pouco, falei sobre O Sol é para Todos recentemente. Não é exatamente um juízo de valor, mas gosto de deixar escrito como livros ou poemas me fizeram sentir.
    Dê uma passada, se desejar: http://1pedranocaminho.wordpress.com
    Vou ver mais posts por aqui!
    Bjs

    Curtir

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