Solidão: um lugar bom de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada.
Josh Billings

Por Alice Andrade

“Sou privilegiada”, disse.

Em uma casa com quase 20 quartos, duas cozinhas, garagem para dez carros e amplo jardim torneado de bancos, verde e flores, Luzia mora há mais de vinte anos. “E ainda tem salão de festas. Ainda bem que não tem piscina, eu nunca quis, não gosto de água parada demais”, completa, orgulhosa, guiando meu rosto com as mãos panoramicamente, para que confirme por mim mesma a falta da piscina ali.

Luzia é uma senhora que se considera sortuda por ter, em sua idade, o conforto de morar em um lugar tão grande. Seus curtos e alvos fios de cabelo molduram a delicadeza dos olhos de quem já viu demais pela vida. As rugas que torneiam os cantos de sua boca são as marcas das risadas e boas conversas que trocou ao longo das quase sete décadas e meia de idade. Além das histórias.

Ah, muitas histórias.

Enquanto seus pés cansados – um deles calçado com um sapato branco singular – fazem questão de caminhar todos os dias pelo jardim para conferir meticulosamente se o jardineiro podou as flores certas, sua mente está presa no pretérito da vida, resgatando boas lembranças e orgulhando-se do seu passado.

bota

“Trabalhei demais na juventude, deu muito trabalho morar aqui, por isso gosto tanto”, relembra. Apesar de ser viúva, não se sente sozinha. As janelas da vizinhança guardam muitas amizades, as quais vêm ao jardim em todos os pores de sol, metodicamente, para conversar.

relogio1Oito horas.

“Estou esperando alguém vir. Ainda não está na hora, então tenho um tempinho para você”. E para a espera passar mais rápido, começa falando de amor. Aquele que teve à primeira vista, que a arrebatou por toda a vida: uma máquina de costuras. Luzia era dessas costureiras cujos olhos são nas mãos. Minuciosa, atenciosa e caprichosa, se titulou. Bolsas, pulseiras e colares eram mais favoritos que os bordados nas roupas. Mas agora, nessa casa, não tem mais tempo para isso. Ou talvez tenha tempo demais.

Além de apreciar a arte da trilogia linha-agulha-tecido, ela também foi babá. Trabalhou em Recife e em Natal cuidando de meninos e meninas de até doze anos em casas de família. Enquanto outrora as brincadeiras das crianças faziam parte de seus dias, hoje é Luzia quem brinca: ela passa o tempo fazendo especulações mentais de como estão atualmente. “Devem ser crescidos, doutores importantes, bonitos cabelos”, sugere.

E ela não esquece que já foi criança também, mesmo que sua infância tenha ido embora mais cedo. Um dia, aos 11 anos, Luzia saiu para fazer compras no mercado, uma vez por semana, a pedido do seu pai. Contava quatro quadras até chegar ao seu destino, onde escolhia os produtos pelos preços. Assim fora desde que virou “moça”. E a montanha-russa da natureza levou a moça a se tornar mulher quando conheceu um sentimento novo: o luto.

Ao chegar em casa após as compras rotineiras, o fio da vida que ainda prendia seu pai, caído no chão, pode arrebentar-se tranquilo ao olhar nos olhos dela. E partiu. “Só me disseram que foi do coração”. Naquele momento de extrema tristeza, ela relembra que desejou não ter um.

relogio2Nove horas.

Apesar de ter sido casada por cinco anos, ela narra que nunca foi apaixonada. Seu marido, que era policial militar, gastava mais tempo dando atenção a outras mulheres do que cuidando da que o esperava em casa. E com a coragem digna de Elizabeth Bennet, saiu de casa e foi trabalhar novamente, sem orgulho e nem preconceito.

“Não há amor que aguente. Ninguém gosta por dois, então um dia fui embora”. Quando chegou à vizinhança, um senhor a pediu em casamento, mas ela não quis. “Ele tinha seis filhos. Deus me livre! Manter uma casa arrumada, ainda mais com filhos, é impossível”, provocou a doce senhora, que optou por nunca tê-los – e nem sabe-los, como diria Vinícius de Morais.

E o Deus que livrou Luzia de casar de novo é o mesmo que a acompanha todos os dias na caminhada solitária pelo extenso lar. Católica, ela carrega um terço nas mãos e um coração repleto de fé. A lentidão de cada passo é inversamente proporcional à velocidade de sua vida, que correu tanto no início, contudo agora parece estática. “Minha visita ainda não chegou, mas deve estar vindo”, reclama, disfarçando a preocupação.

terço

Brás Cubas dizia que a maior vantagem da morte é que “se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar”. A sorridente senhora concorda: “não tenho medo de morrer. Todos nós vamos mesmo, não é? Só que alguns vão antes e…”. E para, respira e sorri. Um sorriso de lábios, apenas, daqueles com olhos de medo.

O dia em casa geralmente começa cedo para Luzia. Acorda às cinco horas com o cheiro do café feito pela cozinheira. Mesmo assim, prefere tomar suco de goiaba, seu favorito. “Meu pai tomava muito café, acho que isso que não o fez bem e prejudicou o coração”, diagnostica. Conforme as lembranças vêm, ela conclui que são tudo que ela tem. Então continua caminhando, passo a passo, para o portão principal; é sua linha de chegada.

relogio3Dez horas.

O horário de visitas está encerrado, mas a de Luzia não veio. “Você volta outro dia, não é? Posso arrumar um tempinho para você. Eu nunca saio de casa…”. E não foi modo de dizer, nem reclamação. Foi um lamento pesado, amargo, constrangido. Luzia realmente nunca pode sair. Seu mundo é do portão para dentro do Instituto Juvino Barreto, localizado em Natal, de onde não tem autorização para passeios externos. Órfã de pai e mãe, divorciada e sem filhos, também não recebe visitas no abrigo. Quem está sempre com ela é a esperança de dias melhores e a procura por artifícios para fugir da solidão.

Seus dias são perambulando pelos quartos. Seus dias são nos jardins. Seus dias já são incertos pela infecção sem cura que se agrava no pé por uma picada de inseto, o que explica seu sapato de esparadrapo branco o qual a obriga a caminhar lentamente. “Me sinto sozinha sim, só que as vezes alguém sempre vem”, é sua declaração contraditória.

Atendendo ao pedido da mãe de tantas crianças, mesmo sem filhos; da costureira zelosa de anos atrás; da dona-de-casa cuidadosa com seu jardim; da mulher corajosa que foi atrás de sua felicidade; e da senhora que não perde a esperança diante da solidão, vou voltar. Para ouvir mais histórias da vida de Luzia, passear pelo jardim ao seu lado e conhece-la melhor, tornando-me melhor também. Essa é uma chance única.

Sou privilegiada, digo.

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