Por Abner Moabe

Natal não consagra nem desconsagra ninguém. Esta frase atribuída ao folclorista potiguar Câmara Cascudo sempre me incomodou. Sempre me perguntei porque nós potiguares temos tanta dificuldade em reconhecer nossos potenciais, sem que seja preciso o restante do país valoriza-los primeiro.

Talvez para que possamos explicar isso, teremos que voltar aos primórdios da formação de Natal em especial, e mesmo assim não ficaria muito claro o porquê dessa aversão ao que é nosso. Não sou historiador nem muito menos antropólogo, mas creio que a “colonização” norte-americana que nossa cidade recebeu durante a Segunda Guerra Mundial exerça a sua influência sobre isso. Eu teria que me dedicar aos estudos para afirmar isto com total firmeza, mas fica aí para a gente refletir em um outro momento.

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Soldados americanos na praia de Ponta Negra durante a II Guerra. Foto: Ivan Dmitri/ Michael Ochs – Archives/ Getty Images

Levantei essa questão porque há algumas semanas venho observando um fato que tem me incomodado um pouco. Não é novidade pra ninguém, todo mundo tá vendo, tá acompanhando, tá muito feliz, inclusive eu, com o sucesso da banda Plutão já foi Planeta no programa Super Star, da Rede Globo. Em pouco mais de dois anos, a banda um disco gravado e o outro em produção conquistou um público bastante considerável dentro da cidade e fazendo alguns shows esporádicos nos estados vizinhos.

Independentemente do resultado final do programa, a banda já sai como vencedora por ter conquistado o seu objetivo principal: a visibilidade e o reconhecimento perante o território nacional. Caberá a elxs daqui pra frente a condução da carreira, pois chegar ao sucesso, que é algo bastante relativo, talvez seja o caminho mais fácil. O desafia será se manter, mas a banda possui qualidade e já demonstra ter bastante maturidade para tomar as decisões certas.

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A banda potiguar recebeu comentários positivos dos três jurados, além de Samuel Rosa. Foto: Gshow

Diante desse cenário, o que me incomodou é que ao longo desses dois anos, a Plutão fez inúmero shows, sempre a preços populares e outros de graça e mesmo tendo já conquistado seguidores fiéis, a banda ainda era ignorada pelo grande público. Cito a Plutão por ser o exemplo mais recente, mas num passado não muito distante tivemos outros nomes como Khrystal e Simona Talma na edição de 2013 do programa The Voice Brasil, ambas com mais de 10 anos de carreira na cena musical potiguar, mas que eram invisíveis para o grande público. A pergunta é: porque é preciso que um artista ou uma banda potiguar precise ir a um programa de TV nacional para que seus próprios conterrâneos passem a valorizar seu trabalho?

Ir à um programa dessa vertente para conquistar a visibilidade do resto do país é completamente compreensível, mas passar a ser enxergado pela sua própria cidade só depois de uma exposição nacional é no mínimo tosco. Mas afinal de contas, porque isso acontece? Músicos de qualidade com excelentes trabalhos nós temos. O que tá faltando? As respostas vão desde a falta de políticas que fomente a produção artística e que possibilitem o acesso do público a essas produções, até o monopólio midiático que só divulga um determinado tipo de música.

Por mais que a internet seja a ferramenta que esteja ditando as regras no mercado fonográfico atual, não podemos negar que a grande mídia tradicional ainda é a principal janela de divulgação e nesse sentido, é muito fácil para as 90 e alguma coisa da vida dizerem que “tocam o que o povo quer ouvir”, quando naturalmente só se toca um determinado tipo de música, resultado da prática do jabaculê. Não é surpresa que o grande público só peça uma música. Esse é um dos motivos pelos quais se faz tão necessária uma regulação dos meios de comunicação no Brasil.

Se quisermos nos aventurar um pouco mais para mostrar que a questão do acesso a produção artística envolve outras árias que aparentemente não tem a ver, podemos citar inclusive o sistema de transporte urbana de Natal. Para alguém que more na periferia, por exemplo, é muito complicado ir à um show ou espetáculo na Ribeira, por exemplo, pois depois de um determinado horário não se tem mais ônibus e nem sempre se tem dinheiro para pagar um táxi, sem falar do preço abusivo da passagem de ônibus, uma das mais caras do Nordeste, levando em consideração o tamanho da cidade.

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Nesse mês, os potiguares do Far From Alaska venceram na categoria Banda Revelação em um dos maiores festivais de música internacional.

Poderia passar horas e horas discorrendo sobre os diversos problemas que temos quando o assunto é o reconhecimento da cultura potiguar pelo seu povo, e isso falando da produção mais Pop. Se formos explorar a cultura popular a coisa é bem pior, mas já deu pra ter uma ideia do monstro que nós temos para domar. Não será surpreendente caso a Plutão já foi Planeta resolva seguir os passos da Far From Alaska e venha a Natal apenas para a temporada de férias. Se Cascudo realmente disse que nossa cidade não consagra nem desconsagra, infelizmente ele parece ainda estar certo, pelo menos enquanto esses e outros problemas persistirem.

Peço licença aos grandes Maurício Tapajós e Aldir Blanc que na sua belíssima canção Querellas do Brasil, eternizada na voz da saudosa Elis Regina, disse que “o Brazil não conhece o Brasil” para fazer minha triste adaptação dizendo que o Rio Grande do Norte não conhece o Rio Grande do Norte e especialmente, Natown não conhece Natal.

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