Café

Um conto sobre a bebida mais popular do mundo e uma rotina sufocante.

A água ainda esquentava no fogão, mas o café em pó e o açúcar já estavam postos na mesa. Numa brincadeira boba, o rapaz corria para achar sua caneca no armário antes que o líquido entrasse em ebulição. Nas pontas dos pés ele se esforçava em encontrar na prateleira de cima a sua caneca preferida, uma azul com detalhes coloridos. Achou-a no mesmo instante em que já se podia ouvir as bolhas pressionarem a chaleira.

Em seguida, desligou o fogo alto e misturou o café solúvel. Duas colheres de açúcar a mais e ele finalmente sentou, arfou e bebericou sua bebida, que, diga-se de passagem, estava pelando de quente. Fez uma careta de dor, pensara ter perdido a língua, e lembrou-se de assoprar o vapor que saía da sua caneca. Pegou alguma bolacha que ainda sobrava de um pacote amassado e a comeu enquanto seu café esfriava.

Tentou, mais uma vez, averiguar a temperatura do café. Quente. Desistiu dele por mais alguns minutos. A brisa que vinha da sala batia em seu rosto e ele a deixava acariciá-lo. O vento frio, daqueles de fim de tarde, reconfortava o garoto, cujos olhos observavam a luz dourada que os objetos refletiam.

Se tivesse se virado, teria contemplado o sol se pondo por trás do muro. No entanto, pegou o celular, viu que já passavam das quatro da tarde e se deu conta de que nada tinha feito durante a tarde inteira. Há tempos não sabia o que era um feriado.

Ao travar o celular e devolvê-lo ao seu lugar, algumas mensagens chegaram. Definitivamente não estava com paciência para lê-las. Ignorou, com muito esforço, os avisos do aparelho telefônico. Enquanto isso, se entretinha com a sua sombra na parede. De perfil, ele tentava de canto de olho, ver o quanto seu nariz era grande.

Momentos assim não eram frequentes. O rapaz, apesar de jovem, passava a maior parte do tempo dentro do escritório, aprovando e editando papeis. Já era formado e morava sozinho, pensava, inclusive, em alugar o segundo quartinho que ele fazia de escritório. Ganhava bem, mas trabalhava com burocracia.

Pensou, então, que não precisava de nenhuma papelada para aproveitar o momento que vivenciava. E, como quem brinca de Deus, quis parar o tempo e guardar aquele instante para todo o sempre. A luz, o vento, e a cadeira confortável geravam nele, de certa forma, uma felicidade momentânea. Em seguida, enfim, tocou a caneca com os dedos e percebeu que o café esfriara um pouco. Levou a bebida à boca e voltou a pensar no que iria fazer do seu resto de tarde.

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As incertezas vivas de mim

Onde está o certo e o incerto, figurativamente, está a luz e o escuro. Nos últimos anos, a fim de entender o que sou e onde estou, busco, inevitavelmente, o conforto da luminosidade. Mas entre certezas e incertezas, prefiro as vivas ou as mortas? As certezas que são secas pedras ou as incertezas que pulsam?

Esses questionamentos nem passaram pela minha cabeça antes de conhecer, no último dia sete, a 32ª Bienal de Artes de São Paulo, realizada no Parque Ibirapuera. O tema desta edição, “Incertezas Vivas”, discute e enaltece os conhecimentos populares e marginalizados, como o de origem indígena, em meio a tantas “certezas mortas” do nosso cotidiano.

Confesso que há um tempo tento ser um teórico de mim mesmo, buscando razões, significados e sentidos naquilo que sinto, faço ou até mesmo sigo ideologicamente. Com a luz na mão, segui esses anos escrevendo mentalmente um grande livro de conclusões pessoais em meio a escuridão da vida.

O fato é que minha obra pessoal caiu do terceiro andar do prédio da bienal e se espatifou no chão do térreo. As minhas certezas, tão rígidas e secas, já não faziam mais sentido em meio a tantos questionamentos vívidos presentes em diversas criações expostas no local.

Foram cores, formas, frases de efeito e até algumas fotos que fiz no meu celular. Foi arte mostrando a mim outras realidades e modos de viver, como as construções “Dois Pesos e Duas Medidas” da artista mineira Lais Myrrha, e a oca de Bené Fonteles. Mais que isso, foi arte ensinando que sentir é tão prazeroso quanto responder perguntas.

Após a experiência, desapeguei das certezas mortas que também me matam por dentro e me impedem de enxergar outros posicionamentos. Passei, assim, a ver beleza no incerto, na dúvida que tanto me pesa, mas que é viva, que pulsa no meu interior. Com o livro destruído e a alma desconstruída, sigo tentando largar de mão a luz e experimentar viver e sentir a completa escuridão.

Foto: Hector Sos