Ideias boas na cabeça e ruins no papel

Explicar piada é sempre chato. Tira a alma do negócio e escancara a graça de algo que, no final de contas, não vai render nenhuma risada. Quando a anedota é contada e o maior esboço de sorriso na mesa é o seu, às vezes é melhor deixar pra lá e fingir que nada aconteceu, like a egípcia.

 Já se a piada inocente dá lugar a uma crítica em um momento de tensão política, eu tenho minhas dúvidas sobre o que fazer. A necessidade de explicar onde está a ironia numa situação dessas é bem mais complicado.

E foi nesse contexto que me vi nesta semana ao publicar o nono miniconto no instagram e no facebook do canguleiro (@ocanguleiro). A história falava de um jovem que desabafava sobre a falta de movimentação e mudança de Natal, fazendo alusão à beleza da natureza da cidade.

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Passando pela Hermes eu notei que ele olhava fixo para fora da janela do carro. Perguntei o que havia acontecido e ele me respondeu, meio que divagando:
– Às vezes eu penso que nós vivemos em uma cidade tão bonita e tão agradável, que nada precisa mudar. É como se a beleza estática das flores dos canteiros ou das árvores do parque já bastasse e nos dissessem “deixa assim, como está”, e a gente vai vivendo da mesma forma, todos os dias

Na minha cabeça o conto estava ok e casava bem com o momento de reeleição de Carlos Eduardo com mais de 60% dos votos. Nada mudava e, pra mim, o personagem do conto deixava claro a ironia ao dizer que os dias passavam iguais, sem nenhuma novidade, bem como as flores dos canteiros da avenida Hermes da Fonseca.

Munido de uma auto-segurança, escrevi o conto, desenhei as florezinhas e postei no perfil público sem nem ao menos perguntar a um amigo se aquilo ali estava claro. Para minha surpresa, uma dessas amigas, que frequentemente lê o que posto e sempre tem algo a dizer, veio me contar a sua interpretação, que, diga-se de passagem, era bem diferente daquela que eu estava imaginando. Após uma breve pesquisa com outros conhecidos, reconheci que o objetivo do texto não estava acessível.

Ao escrever aquele pedaço de história, meus sentimentos estavam claros para mim. Infelizmente, não consegui levá-los ao texto. Há um tempo vinha refletindo sobre a inércia na qual diversos natalenses estão mergulhados e o conto, ao fim, fazia total sentido… pra mim.

Nessa história toda acabei achando melhor não alterar o texto. Não queria explicar a piada, mas também não poderia deixa-la passar. Dessa forma, acho melhor pedir desculpas e prometer a mim mesmo um olhar mais atento à interpretação dos leitores. #PAS

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