“Moço, por favor, me ajude”

Quando a gente vê a sinceridade nos olhos, mas mesmo assim desconfia

Embaixo de uma sombra de árvore, sentada no meio fio pintado de cal, uma menina olhava para os lados, como quem procurava algo. A criança, aos pés da mãe, imitava o olhar da progenitora, uma senhora negra, de bolsa em obro, que esperava pacientemente por alguém. Eram mais de dez da manhã. Ali, no estacionamento da universidade, o sol de quase verão arrancava gotas de suor da testa da mulher, mas parecia não afetar a garota.

Ao me aproximar das duas, não por conhecê-las, mas por estarem no caminho do meu destino, uma delas me cumprimentou se desculpando, não quero atrapalhar. Em seguida, veio a súplica de ajuda e a razão daquele pedido:

– Sou do interior, meu marido saiu de casa. Vim ontem pra cá atrás de umas faxinas que minha cunhada me prometeu, para ao menos dar um natal às minhas crianças. Só que ao chegar no endereço, descobri que ela tinha se mudado, vive em outra cidade. Agora, não tenho mais um tostão pra ir atrás dela nem pra voltar à minha terra.

Dinheiro, porém, ela não me pediu. Queria saber onde conseguia um lugar, alguma ajuda da prefeitura, para apaziguar o medo de dormir fora de casa. Na rodoviária, onde tinha passado a última noite, ninguém a ajudara.

Aquela retirante, de dor nos olhos, aparecia na minha vida dias depois de eu ter finalizado o livro “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, cujas páginas contam a história de Chico Bento, um sertanejo que, ao sofrer com a seca, decide abandonar sua terra e ir em direção à capital em busca de uma vida melhor.

Durante a leitura, sofri com cada negação que o homem recebia em seu trajeto a pé. Um pouco de farinha, um copo de água e um trabalho que fosse. Toda resposta era não.

Em frente à mulher, cuja mão repousava no meu braço, perguntei-me as negações sofridas durante o percurso dela. Quantos ouvidos feitos de surdo, olhares de cego e bocas de mudo passaram por aquela interiorana?

Não pude deixar de ajudar. Era a ficção tornando-se realidade bem na minha frente e pedia-me ajuda. Moço, por favor. Me propus, então, pagar a passagem de volta. 39 reais, 18 cada.

No momento da doação, relutância. É muito dinheiro, tem certeza que não vai te fazer falta? Tem mesmo?

Por fim, ela pegou a quantia e rapidamente me deu um abraço, forte. Olhou nos meus olhos, nunca vou esquecer esse bem que o senhor me fez!

Ao dar às costas às duas, procurava entender o que acabara de acontecer. Meu destino já não importava mais. Em minha carteira havia, agora, menos dinheiro, tinha dado tudo dela à uma desconhecida, que em cinco minutos me emocionara com seu relato de retirante.

Relato fictício? Destrinchei o discurso da mulher em busca de alguma brecha de mentira. O gaguejar ao falar do ônibus de volta, a descrição incerta de como havia chegado à universidade e um riso de canto da criança. Todos os detalhes da conversa vieram aos meus olhos e ouvidos, detetives de farsas.

A vergonha, que em seguida se alastrava no meu peito, vinha da ingenuidade. Teria eu caído em um golpe? Como pude ter sido tão impulsivo com todas essas conversas que a gente escuta sobre charlatões?

Sendo fictício, como a história criada por Rachel de Queiroz, ou não, o discurso daquela mulher, enfim, pouco importava. A história contada, fosse do interior ou da capital, não tinha real peso frente ao olhar sincero que vi nos olhos dela. Ela precisava daquele dinheiro. E, mesmo se os olhos escondessem no fundo da córnea a malícia, preferi não me importar.