O Outro se mata em banheiros

Caso de preconceito a transexuais que viralizou nas redes sociais é exemplo de como aniquilamos os outros e não sabemos lidar com diferenças.

Na praça de alimentação de um supermercado, gritos. Mais que isso, a voz explosiva dentro do estabelecimento são ameaças. “O próximo que entrar no banheiro com uma das minhas filhas dentro eu mesmo mato!”, anunciava um homem, que se autodenominava Gustavo, em um vídeo que circula nas redes sociais.

A cena de ira iniciou-se, segundo relatos, após transexuais utilizarem o banheiro feminino do local, onde estava a esposa do homem. O casal teria começado a discussão, que acabou chegando aos perfis do Facebook de muita gente, inclusive o meu.

Ao ver a discussão, o horror me atingiu. Ameaças tão frias e diretas, não em São Paulo nem Rio, mas aqui, perto de mim. Palavras de preconceito e de puro ódio, embasadas por um pensamento retrógrado e ainda nutrido por muita gente.

Sensações à parte, não pude deixar de fazer uma ligação entre o episódio dessa semana com as palavras do teórico da Comunicação, Roger Silverstone. O pensador, em seu livro “Por que estudar a mídia?”, diz que em sociedade não vivemos sozinhos, compartilhamos espaços com outras pessoas, tanto familiares como desconhecidos. São os Outros.

Existe um processo, porém, de aniquilamento do Outro. Distanciamos as pessoas diferentes de nós, não nos importamos com elas. Durante o século XX, por exemplo, os alemães se afastaram dos judeus. O povo hebraico não era mais humano, eram párias que deveriam ser combatidas pela própria sociedade alemã. Foi assim que surgiu o Holocausto.

Mais de cinquenta anos depois, no vídeo, as palavras do homem Gustavo às mulheres transexuais foram claras: “Uma criança dessa aqui não tem a obrigação de ver vocês!”. Assim, transexuais não são mais pessoas com direito de ir e vir, de existir e de ser quem são com dignidade. Não são mais pessoas.

O Outro é aniquilado pelo ódio, pela intolerância. O resultado disso, nós sabemos: o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis. Gays, lésbicas e minorias também sofrem com o ódio alheio todos os dias. São reduzidos a nada, não são mais gente. São coisas que se matam, como o próprio homem sugeriu, em banheiros de supermercados.

Quando conseguiremos quebrar a maldição de Cascudo?

Por Abner Moabe

Natal não consagra nem desconsagra ninguém. Esta frase atribuída ao folclorista potiguar Câmara Cascudo sempre me incomodou. Sempre me perguntei porque nós potiguares temos tanta dificuldade em reconhecer nossos potenciais, sem que seja preciso o restante do país valoriza-los primeiro.

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A extinção do MinC e seu impacto no fazer cultural

Por Abner Moabe

A crise política no Brasil não é mais novidade para ninguém. Temos acompanhado o desenrolar de toda essa situação que vem se agravando, principalmente após o afastamento da presidenta Dilma Roussef, tendo seu lugar ocupado por Michel Temer que em menos de 24 horas, tomou medidas que deixam claro os tempos sombrios que se aproximam.

Entre tantas ações deploráveis em menos de uma semana de (des)governo, uma das que causou maior reprovação foi a extinção do Ministério da Cultura, que passou a ser uma secretaria subordinada ao Ministério da Educação (MEC) e tem sido alvo de protestos por grande parte da classe artística.

Criado em 15 de março de 1985, o Ministério da Cultura (MinC) tinha como principal função a execução de políticas que fomentam a cultura brasileira. Considerando que a cultura é um bem público, cabe a gestão pública cuidar para que ela não desapareça com o passar do tempo, criando políticas que facilitem a sua preservação e promoção.

Para discutir as consequências da extinção do MinC, o Fórum Potiguar de Cultura organizou na noite desta segunda-feira (16) uma conversa para debater o assunto. O encontro reuniu em debate os professores Durval Muniz (História/UFRN), Nara Pessoa (Produção Cultural/IFRN) e Sávio Araújo (DEART/UFRN), além do ator e articulador da Rede de Pontos de Cultura, Rodrigo Bico e o representante do ministério no nordeste, Gilson Matias. A mesa teve como mediador o jornalista Tácito Costa.

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Foto: Fórum Potiguar de Cultura

Com o mote de “A Quem Interessa o Fim do MinC?”, foram levantadas questões não apenas referentes ao âmbito da cultura, mas uma avaliação geral da conjuntura e suas futuras consequências a curto, médio e longo prazo. O professor Durval Muniz falou do quanto será prejudicial ter no poder um governo conservador e neoliberal como vem se desenhado e foi bem claro sobre o valor simbólico que tem a extinção do MinC sobre o reais interesses de Temer e Cia para o Brasil.

“O que se quer é a quebra da construção de um contra discurso através da cultura. A cultura é um bem público que não interessa à eles” – Durval Muniz

Rodrigo Bico fez questão de deixar bem claro que O “Fora Temer” precisa vir antes do “Fica MinC”. “Não adianta nada pedir a volta do MinC com um governo ilegítimo no poder. É preciso centrar forças para derrubar Temer”. O representante do MinC Nordeste, Gilson Matias, preferiu substituir a fala institucional para conclamar aos setores da cultura irem para a rua lutar não apenas pela existência do Ministério da Cultura, mas principalmente contra o retrocesso representado por Michel Temer e a quadrilha que ele chama de ministério.

Quando foi criado, o Ministério da Cultura cuidava apenas da Lei Rouanet e dos institutos como do Patrimônio Histórico e entre outros. Quando Gilberto Gil assume a pasta em 2003, o Ministério passa da discutir não apenas as chamadas “belas artes”, mas passa a reconhecer no mesmo nível de importância a chamada cultura popular, desde aquela feita pelos mestres de tradição como o Maracatu, o Auto do Boi de Reis, a Chegança, os Congados entre outros, como também a cultura urbana e periférica como o funk e o hip-hop. A cultura é feita pelo povo e é a partir desse reconhecimento que o MinC passa a fomentar políticas de valorização e preservação dela como os pontos de cultura, por exemplo.

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A partir de 2003 MinC passou a reconhecer a cultura popular como o Maracatu. Foto: Prefeitura de Olinda

O pseudo-governo neoliberal de Temer usa a necessidade do enxugamento da máquina pública como desculpa para o fim do MinC, mas é bom deixar claro que o Ministério da Cultura possui (ou possuía) apenas 0,38% do orçamento geral. A cultura é o bem mais valioso que um povo pode ter. Desmerecer a importância de um órgão que cuida da manutenção da cultura, é virar as costas para a própria cultura brasileira. O ministério nos foi tirado, mas a nossa cultura, essa ninguém nos tira e ela há de resistir.