Não precisa ser perfeito

O que aprendi numa exposição de arte contemporânea

Linhas, pontilhados, traços. Nada fazia sentido. Em uma das salas da exposição “Fora da Ordem”, na Pinacoteca de São Paulo, eu me perguntava a razão das pessoas olharem com tanta preocupação aqueles quadros pregados na parede. Elas pareciam entender cada detalhe das obras, como se tivesse ali um código secreto cuja mensagem eu não conseguia captar.

Exposição ‘Fora da ordem – Obras da Coleção Helga de Alv
Exposição “Fora da Ordem” na Pinacoteca de SP. Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP

Passava, voltava, dava uma olhada novamente. Me impressionava com a origem do artista. Nossa, essa aqui veio da Espanha. Mas, para mim, nada daquilo parecia ser além de figuras abstratas sem sentido.

Nas imagens, por exemplo, procurava padrões ou elementos reconhecíveis, como um pé, uma mão ou algo que parecesse um coelho numa floresta. Até que eu me dei conta que para entender aquelas obras eu estava usando referências de design gráfico, que pra mim era tão acessível nas redes sociais.

As pinturas que eu olhava não representavam uma pessoa, uma fruta ou uma paisagem, como os desenhos de ilustradores que sigo no Instagram e que considero referências para as minhas produções. Também passavam longe daquelas da era renascentista, nada de trabalho com sombras ou pinceladas. Aquilo tudo, naquelas salas, não precisava ser perfeito. Como qualquer tipo de arte.

Algumas semanas depois, já em Natal, enquanto dava uma olhava na newsletter diária do Medium, cheguei ao artigo “Here’s why you might be afraid to live a more creative” de Thomas Oppong, em que ele fala sobre o medo de produzir das pessoas que se dizem não criativas. No texto, ele comenta que não precisamos ser perfeitos para começar algo. Isso se encaixou perfeitamente com o que eu tinha passado na Pinacoteca paulistana.

A exposição contava com diversos artistas aclamados pela crítica mundial e as obras nem sequer eram perfeitas. Quando a ficha caiu, passei a respeitar a existência das obras e a reconhecer o trabalho daqueles artistas de diversos países. Quando vi, já tinha me incorporado ao grupo de pessoas que prestavam atenção. Não para entender, mas para contemplar.

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Mudança?

Os mesmos políticos, a mesma cidade

A tranquilidade usual de uma noite de domingo em Natal foi interrompida essa semana pelas buzinas nas ruas e pelos fogos de artifício que explodiam em vários cantos da cidade. Ao ouvir, aqui perto de casa, um carro de som saudando um vereador recém eleito, fiquei com a impressão de que o perturbado domingo foi uma das poucas mudanças que a cidade viveu na noite do dia dois de outubro.

Mudança, inclusive, foi tema de uma postagem de uma amiga próxima, Alice Andrade, em que questionava a “necessidade de mudar” dos natalenses frente à reeleição de Carlos Eduardo no primeiro turno, com mais de 60% nas urnas. “Síndrome de Estocolmo, masoquismo ou falta de noção mesmo?”, concluía.

De fato, é assombroso a quantidade de votos que o candidato do PDT conseguiu, sem deixar espaço para um segundo turno. Foi o terceiro prefeito mais votado do país. Durante a campanha, Carlos Eduardo parecia estar tão certo do resultado que nem se deu o trabalho (e o respeito) de comparecer aos debates da Televisão Universitária e da própria Reitoria da UFRN, bem como a uma entrevista em um programa da Band Natal.

 Mais um representante da família cuja profissão é estar no poder. As coisas não mudaram, como pediam os potiguares, dia desses, na avenida Salgado Filho. Já a Câmara Municipal receberá representantes de políticos que não podem mais se reeleger, pois são julgados corruptos. Mulher de vereador condenado legislando, seria amor pela política? Confesso que só posso responder a essa pergunta com mais convicção do que com fatos.

O momento político em que a capital potiguar passa me faz lembrar do cenário em que os personagens do livro A Peste, de Albert Camus, se encontravam no romance do autor. No livro, enquanto aumentava em centenas o número de mortos por uma virose desconhecida, só restavam aos vivos a luta e a esperança de dias melhores.

“Muitos moralistas novos da nossa cidade diziam então que nada servia para nada e que era preciso cair de joelhos […], mas a conclusão era sempre o que eles sabiam: era preciso lutar, desta ou daquela maneira, e não cair de joelhos” (p. 94).

As incertezas vivas de mim

Onde está o certo e o incerto, figurativamente, está a luz e o escuro. Nos últimos anos, a fim de entender o que sou e onde estou, busco, inevitavelmente, o conforto da luminosidade. Mas entre certezas e incertezas, prefiro as vivas ou as mortas? As certezas que são secas pedras ou as incertezas que pulsam?

Esses questionamentos nem passaram pela minha cabeça antes de conhecer, no último dia sete, a 32ª Bienal de Artes de São Paulo, realizada no Parque Ibirapuera. O tema desta edição, “Incertezas Vivas”, discute e enaltece os conhecimentos populares e marginalizados, como o de origem indígena, em meio a tantas “certezas mortas” do nosso cotidiano.

Confesso que há um tempo tento ser um teórico de mim mesmo, buscando razões, significados e sentidos naquilo que sinto, faço ou até mesmo sigo ideologicamente. Com a luz na mão, segui esses anos escrevendo mentalmente um grande livro de conclusões pessoais em meio a escuridão da vida.

O fato é que minha obra pessoal caiu do terceiro andar do prédio da bienal e se espatifou no chão do térreo. As minhas certezas, tão rígidas e secas, já não faziam mais sentido em meio a tantos questionamentos vívidos presentes em diversas criações expostas no local.

Foram cores, formas, frases de efeito e até algumas fotos que fiz no meu celular. Foi arte mostrando a mim outras realidades e modos de viver, como as construções “Dois Pesos e Duas Medidas” da artista mineira Lais Myrrha, e a oca de Bené Fonteles. Mais que isso, foi arte ensinando que sentir é tão prazeroso quanto responder perguntas.

Após a experiência, desapeguei das certezas mortas que também me matam por dentro e me impedem de enxergar outros posicionamentos. Passei, assim, a ver beleza no incerto, na dúvida que tanto me pesa, mas que é viva, que pulsa no meu interior. Com o livro destruído e a alma desconstruída, sigo tentando largar de mão a luz e experimentar viver e sentir a completa escuridão.

Foto: Hector Sos

De volta à caixa de entrada

Como o email, antes mera correspondência virtual, está se transformando em uma peneira de conteúdo em meio a confusão de informações

Sempre gostei de usar email, acho profissional. Nos últimos meses, porém, além das mensagens do trabalho e das confirmações de compras online, venho descobrindo uma nova funcionalidade desse serviço: a newsletter. Estruturada em forma de boletins com hipertextos e enviada diretamente para a a caixa de entrada do email, essa ferramente está sendo reutilizada por autores e diversos profissionais que trabalham com mídias sociais.

Nada de marketing ou de ofertas imperdíveis, a newsletter atual foca no conteúdo. Mais que isso, o conteúdo especializado. Eu sigo, por exemplo, autor que fala de literatura, cultura pop e até de empreendedorismo. E os formatos são variados: listas, textos pessoais, contos, indicações de livros, etc.

Muitos funcionam como um blog. A escritora Aline Valek, que inclusive assina uma coluna na Carta Capital, envia semanalmente algumas crônicas e textos de própria autoria no Bobagens Imperdíveis. Já o Não diga alô, diga alor Maceddona conta fatos engraçados (ou nem tanto) do cotidiano de um jovem em Maringá, no Paraná.

Fora os inúmeros serviços de sites de notícia, como o do Nexo, portal de notícias que envia de manhã um resumo do que está acontecendo no Brasil e no mundo, e do Medium, oferecendo dezenas de sugestões de leituras diárias.

E o cenário só tende a crescer. Em uma pesquisa realizada com os meus seguidores, 43% assinavam algum tipo de newsletter para acompanhar as publicações de blogs e de assuntos de interesse pessoal. Os outros 51%, claro, podem ser vistos como um público em potencial.

Isso porque temos que lidar com um fluxo cada vez maior de informação, seja no facebook, nos sites de notícias ou nos grupos do whatsapp. A newsletter, feita por profissionais da área (como escritores, jornalistas e empresários) é uma alternativa de filtro para essa avalanche de conteúdo virtual, uma espécie de curadoria de links, textos e indicações de produtos.


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Dedicatória

“Há mais coisas entre a dedicatória de um livro e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”, diria Hamlet ao abrir o meu exemplar de “O encontro marcado” do mineiro Fernando Sabino. Isso porque na segunda página do livro, comprado por meros (e muito bem investidos) seis reais em um sebo no centro da cidade, foi escrita uma dedicatória no mínimo curiosa.

livro

De caneta azul está a equação: “R2 + (I)² + ZOVA + (LD)² + AU”.

Além disso, mais um registro, feito com a mesma tinta: “Eu”.

Não sei o qual o resultado da equação, se é que existe um, ou se os números e letras constroem uma mensagem subliminar. Será apenas uma conta matemática ou uma mensagem? O conteúdo da soma ficará escondido por um bom tempo, ou para sempre, afinal, nunca fui bom com números.

Problemas com aritmética à parte, o que fica é a curiosidade de saber qual teria sido a intenção do antigo dono do livro, o “Eu”. Mas esse pronome pessoal do caso reto se referia ao proprietário do livro ou ao remetente? Teria sido o livro um presente de uma pessoa tão especial que não precisasse se identificar? Eu.

A única pista existente é a própria assinatura. Inelegível. A primeira letra muda de um A para um P, e assim fica difícil de saber qual o nome do dono ou remetente. Além disso, a mensagem está datada.

30/05/76.

Sim, Horácio, mil novecentos e setenta e seis. Eu nem era nascido, você já tinha morrido há tempos. Nossa vã filosofia ainda não foi capaz de adivinhar o passado, mas não custa tentar imaginar.

O barco

No parapeito branco do viaduto do Baldo se apoiava um menino. Com seus 10 anos de idade e corpo magro, ele utilizava a estrutura elevada para realizar o seu sonho de criança. No fim da tarde daquele 21 de novembro, ele se debruçava na estrutura sobre as avenidas Rio Branco e Deodoro da Fonseca, no centro da cidade. Não era notado, mas observava cada pessoa ali de cima.

Naquele dia, em especial, o menino se realizava. Há alguns anos, subia o viaduto arrastando a chinela de dedo, para ver passar a procissão de Nossa Senhora da Apresentação, que vinha do Alecrim. Aquela imensidão de gente descendo a ladeira, passo a passo, se assemelhava como um braço d’água invadindo o sertão seco em tempos de cheia. E ele adorava observar aquela cena.

É certo que o sonho do menino era ser marinheiro, trabalhar em um navio além mar, onde o horizonte é infinito. Apesar da proximidade do litoral, o garoto ainda era muito pequeno para assumir o posto idealizado. E era no parapeito da estrutura de concreto armado que o menino se fazia marujo.

Gostava de imaginar que o viaduto era um grande navio, que passava bravamente pelo mar de pessoas à frente. De azul e branco, os fies se igualavam ao oceano. E o coro de vozes soava como as ondas batendo na polpa da embarcação. Era uma verdadeira aventura para aquela imaginação infantil.

Com as mãos cruzadas sob o queixo, o rapazinho descansava o corpo no parapeito e brincava de ser criança. O vento forte no rosto e o reflexo dourado do pôr do sol vindo do rio Potengi, à sua direita, adicionavam realidade àquela experiência, a qual foi logo interrompida por uma das ondas abaixo.

Os olhos do menino se encontram aos de uma mulher, que ao contemplar o céu, reconheceu naquele pontinho em cima do viaduto o seu filho. Assustado, o garoto desceu a pista do Baldo e correu de volta para casa. A partir desse dia, não viajou mais de barco.

A primeira vez (na Ribeira)

O meu primeiro contato cultural com a Ribeira foi na casa que leva o mesmo nome do bairro. Era 2012. Na ocasião, com os cabelos raspados por causa de uma recém aprovação no vestibular, pisei no casarão de número 52 da rua Frei Miguelinho como quem dá o primeiro passo para a liberdade.

Sempre fui proibido, quando adolescente, de acompanhar meus amigos nas festas do Galpão 29 e do Armazém. O ambiente hostil à família tradicional brasileira intrigava meus pais, os quais nunca frequentaram as ruas boêmias do porto. Os conceitos predefinidos de ambiente marginalizado fizeram com que eles decretassem: “Você só vai à Ribeira quando tiver 18 anos”.

Como bom filho que sou, respeitei a cláusula de contrato do “Enquanto estiver debaixo do meu teto”, mesmo havendo brigas frequentes. Quinze dias depois de atingir a maioridade, no entanto, nada me detinha. Assim, em um domingo de janeiro, fui com mais duas amigas para o acústico de Talma e Gadelha. Seria o grande dia.

Para mim, tudo era novo. Parecia criança no circo, olhando tudo com cuidado e com uma espécie de euforia tomando conta do meu corpo. Percebi o contraste entre as paredes antigas de tijolos com as poltronas modernas e acolchoadas. Percebi os diferentes tipos de pessoas ao meu redor. Percebi também o quanto tem gente da cidade que faz arte e que tem vontade de consumir o que é produzido aqui.

Quatro anos depois já voltei à Casa da Ribeira diversas vezes, sempre descobrindo algo novo. O andar de cima, o café delicioso da cantina, os livros da biblioteca e, principalmente, o que os artistas tem a dizer em suas peças, monólogos e shows.

Guardo em mim um carinho absoluto ao espaço que completou 15 anos no último dia seis. Sempre valorizando e dando espaço para a arte potiguar, apesar das frequentes faltas de incentivo público. Parabéns, Casa da Ribeira!! E que venham mais Jaci; Por que Paris?; Meu Nome é Zé e outras peças e shows que pude assistir.